VOLTA ÀS AULAS! VOLTA AOS PROBLEMAS?
1ª parte

Artigo por Dr. Sílvio F. De Lima Filho

Quando eu era criança, e olha que não faz tanto tempo assim, pois tenho pouco mais de cinqüenta anos, era pouco freqüente que as famílias escolarizassem seus filhos antes dos quatro ou cinco anos de idade. A vida escolar começava geralmente nesta época com o ingresso no jardim ou pré-primário, como se chamava na época a pré-alfabetização. Era um ritmo diferente. A vida transcorria com mais lentidão e a maioria das mães não trabalhava fora de casa. Quando sim, havia maior facilidade de se ter disponível uma avó, tia, madrinha ou mesmo uma babá de confiança trazida às vezes lá dos cafundó para cuidar da criança enquanto a mãe trabalhava.

Hoje o ritmo mudou e a música é mais agitada. A mulher se emancipou e saiu de casa para o mercado de trabalho. Até a vovó, titia e madrinha voltaram a trabalhar ou já não podem mais ficar com a criança. Uma boa empregada ou babá de confiança é jóia rara hoje em dia. E quando achamos não temos onde coloca-lá nestes “apertamentos” cada dia menores. Solução: apelar para a creche ou colégio.

Freqüentemente me deparo com casais que trazem seu filho a consulta médica porque a criança apresenta-se freqüentemente resfriada, com tosse e encatarrada, desde que entrou para a creche ou pré-escolar. Na maioria das vezes já passou por diversos profissionais e mesmo tendo recebido tratamento cuidadoso por parte daqueles este se mostra inócuo frente ao adoecer constante. A dúvida assalta a mente materna; será meu filho alérgico? Portador de alguma doença da imunidade? Estarão cuidando bem da criança na escola ou creche?

Muito comum que estas questões venham à tona permeadas por um certo sentimento de culpa, principalmente por parte da mulher já que no nosso modelo comportamental, apesar das responsabilidades profissionais e até mesmo de provimento financeiro semelhantes ao homem que a mulher agregou saindo de casa para trabalhar, ainda cabe a ela a grande responsabilidade dos cuidados com filhos. Resultado disto: uma família estressada, “à beira de um ataque de nervos”, querendo do alergista um remédio ou vacina que ponha fim ao desespero.

Mas nem sempre a solução vem com remédios. É claro que existem crianças alérgicas que necessitam de testes para esclarecimento de sua alergia ou mesmos de imunoterapia específica (vacinas) para seu tratamento. Outras, muito raramente podem apresentar doenças do sistema imunológico que a colocam em posição desfavorecida quando do ataque de agentes infecciosos ocasionando casos mais graves até com risco de vida necessitando igualmente de tratamento específico.

O fato é que a grande maioria dessas crianças apresenta mesmo é uma disfunção transitória da imunidade, uma imaturidade imunológica que se resolverá com o passar do tempo na medida que o sistema de defesa adquire maior experiência frente às agressões.

Costumo comparar estes casos a um computador, inicialmente desprotegido, susceptível a qualquer “vírus vagabundo”. À medida que instalamos antivírus e procedemos a atualizações e downloads o sistema já nos permite navegar com certa tranqüilidade. A criança pequena normalmente atinge esta condição por volta do quatro a cinco anos de idade, quando mesmo freqüentando creche ou escola deixa de adoecer a todo instante trazendo alívio à alma de pai e mãe.

Como vemos, nossos pais e avós é que estavam certos nos levando para a escola por volta dos cinco anos. Cabe ao médico esclarecer e acalmar a família, assegurando-a que mesmo com mar revolto a imensa maioria das embarcações aporta com segurança ao cais. Apesar das febres, catarros, inflamação de garganta e outras moléstias nossos filhos sobreviverão. E geralmente sem seqüelas.

Chegamos então a conclusão que ainda que não haja remédio para tudo, sempre há uma explicação e atitude tranqüilizadora para brindarmos nossos pequenos pacientes e seus angustiados pais.

Como diriam meus filhos:
“Fique frio” e Bom Ano Letivo!