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AAAAI ANNUAL CONGRESS SAN ANTONIO, TX, USA 2013

Esofagite Eosinofilica

por Dr. José Laerte Boechat


A esofagite eosinofílica (EEo) é uma doença esofagiana crônica, imunologicamente mediada, caracterizada clinicamente por sintomas relacionados à disfunção esofagiana e histologicamente por uma inflamação predominantemente eosfinofílica.


A anamnese de um paciente com EEo deve focar em sintomas associados à alimentação e deglutição, tais como dor abdominal, vômitos, anorexia, disfagia, impactação alimentar, dor torácica e sintomas semelhantes aos da doença do refluxo gastro-esofágico (DRGE). Impactação alimentar e dor torácica são mais frequentes em adolescentes e adultos jovens, enquanto nas crianças predominam sintomas mais inespecíficos como dor abdominal e vômitos.

O exame físico deve ser direcionado para a avaliação nutricional e do desenvolvimento / crescimento do paciente, assim como pesquisa de outras potenciais causas de esofagite.


A EDA com realização de biópsia do esôfago é um método diagnóstico imprescindível em pacientes com suspeita de EEo. Os achados endoscópicos (tais como anéis esofagianos, pregueamento longitudinal, edema, estreitamento do esôfago, exsudatos de coloração esbranquiçada etc) podem sugerir, mas não confirmar, a EEo. Devem ser obtidas 2 a 4 biópsias tanto do esôfago proximal como do distal. Com raras exceções, a presença de 15 ou mais eosinófilos por campo de grande aumento é considerado o patamar mínimo para o diagnóstico de EEo.

Biopsias gástrica e duodenal devem ser também realizadas para excluir outras potenciais causas de doença gastrointestinal associada com eosinofilia.


Deve ser feita com dois objetivos. Em primeiro lugar, para documentar a sensibilização a aeroalérgenos, assim como diagnosticar e tratar doenças atópicas concomitantes.

Em segundo lugar, os testes cutâneos de leitura imediata,dosagem de IgE sérica específica e patch tests com alimentos podem ser usados para auxiliar na identificação de alimentos associados ao desencadeamento dos sintomas.

Entretanto, estes exames podem não ser suficientes para fechar o diagnóstico de alergia alimentar associada à EEo. Em alguns pacientes com EEo, os alimentos que funcionam como gatilho dos sintomas são identificados apenas através da documentação da remissão da doença e posterior retorno da mesma após dietas de eliminação específicas e reexposição.


Apenas para reforçar o conceito de que a EEo é uma doença clínico-patológica, lembrar da importância no diagnóstico da caracterização dos sintomas, da observação da inflamação eosinofílica restrita ao esôfago, e da remissão da doença com a dieta de exclusão e/ou utilização de corticosteroides tópicos.


Diversos estudos têm apontado, de forma cada vez mais clara, para a importância da eotaxina-3 na gênese da EEo.


Dieta: a identificação e eliminação do alimento (ou dos alimentos) que desencadeiam a doença é ponto fundamental do tratamento. A grande dificuldade hoje, amplamente discutida durante o Meeting, é como identificar QUAIS alimentos devem ser eliminados da dieta. Existem estudos que fornecem embasamento para a eliminação apenas dos alimentos identificados através da pesquisa de IgE específica ou do patch test para alimentos. Outros grupos defendem uma dieta bastante radical, com eliminação de leite de vaca, ovo, trigo, soja, frutos do mar, amendoim e carne, independente dos resultados dos testes alergológicos, levando a desafios nutricionais enormes para o paciente e para o médico assistente. Apesar do ponto de equilíbrio nesta questão parecer estar localizado entre estes 2 extremos, foram apresentados estudos nos quais mesmo naquele grupo onde a dieta baseia-se exclusivamente nos resultados dos testes alergológicos, a retirada do leite de vaca da dieta, mesmo nos pacientes com testes negativos para os antígenos do leite de vaca, melhora significativamente o percentual de remissão dos sintomas. Em resumo, em termos de dieta, 3 regimes foram demonstrados como eficazes: o uso exclusivo de fórmula de aminoácidos, a restrição dietética baseada nos testes alergológicos e a dieta baseada na eliminação dos antígenos alimentares mais comuns.

Corticosteróides: os corticosteroides tópicos são eficazes no tratamento da EEo tanto em crianças como em adultos. Outra discussão bastante interessante durante o Meeting foi se o tratamento deveria ser baseado exclusivamente na dieta de exclusão (como defendem alguns), exclusivamente no uso dos CE tópicos (como demonstram alguns estudos, alegando a impossibilidade de muitos pacientes manterem a dieta de exclusão) ou, como parece ser o mais lógico e consensual, uma combinação da dieta e do uso da medicação de forma controlada e racional.

Dilatação: dilatação esofagiana promove alívio da disfagia em pacientes selecionados com EEo. É importante destacar que se o grau de estenose presente não for grave, recomenda-se tentar o tratamento dietético ou medicamentoso antes de partir para a dilatação.

Não devemos esquecer que o estilo de vida do paciente, o grau de aderência ao tratamento (seja ele qual for) e os recursos financeiros da família devem ser levados em consideração no momento da instituição da terapia. Em muitos casos, o acompanhamento conjunto com um nutricionista é indispensável.

Liacouras CA, Furuta GT, Hirano Ikuo, Atkins D et al. Eosinophilic esophagitis: Updated consensus recommendations for children and adults. JACI 2011;128:3-20

Atkins D and Futura GT. Eosinophilic gastroenteropathies (eosinophilic esophagitis, eosinophilic gastroenteritis and eosinophilic colitis). In: James JM, Burks W, Eigenmann P eds. Food Allergy: practical clinical approaches to diagnosis and management. 1ª. Ed. Philadelphia: Elsevier Saunders; 2012. p 129-141.