Boletim 03 – Associação Brasileira de Alergia e Imunopatologia – Regional Rio de Janeiro (ASBAI-RJ)
Em 2026 foi publicada a atualização do International Guideline for the Definition, Classification, Diagnosis and Management of Urticaria (Allergy, 2026), elaborado sob coordenação da EAACI/GA²LEN/EuroGuiDerm/APAAACI, com participação de especialistas de 59 países. Construído segundo metodologia AGREE II e sistema GRADE, o novo documento consolida evidências recentes e introduz mudanças conceituais e práticas relevantes no manejo da urticária crônica.
Um dos avanços mais importantes está na ampliação da compreensão fisiopatológica da urticária crônica espontânea (UCE). O guideline enfatiza que a ativação mastocitária vai além da via clássica mediada por IgE e receptor FcεRI. São destacadas outras rotas de ativação, como o envolvimento do receptor MRGPRX2, além da diferenciação mais clara entre autoimunidade tipo I (autoalérgica) e tipo IIb (mediada por autoanticorpos contra IgE ou FcεRI). Também ganha destaque o papel da inflamação tipo 2 (IL-4/IL-13) e da tirosina-quinase de Bruton (BTK), elementos que fundamentam o desenvolvimento de novas terapias-alvo. Essa visão reforça o conceito de que a UCE é imunologicamente heterogênea, composta por diferentes endótipos.
No tratamento, os anti-histamínicos H1 de segunda geração permanecem como primeira linha, com possibilidade de aumento de dose. A principal atualização está na segunda linha terapêutica: além do omalizumabe, o guideline passa a incluir formalmente o dupilumabe e o remibrutinibe (Figura 1).
O dupilumabe é um anticorpo monoclonal anti-IL-4Rα que bloqueia a sinalização de IL-4 e IL-13, modulando a inflamação tipo 2. Estudos de fase III demonstraram eficácia como terapia adjuvante em pacientes com UCE refratária aos anti-histamínicos, com redução significativa da atividade da doença. Além disso, apresenta perfil de segurança favorável e potencial benefício adicional em indivíduos com comorbidades inflamatórias tipo 2.
O remibrutinibe é um inibidor oral seletivo da tirosina-quinase de Bruton (BTK), bloqueando a sinalização do FcεRI e a ativação mastocitária mediada por IgE. Ensaios clínicos de fase II e III demonstraram redução significativa do UAS7 e melhora nas taxas de controle da doença como terapia adjuvante. Sua administração oral, sem necessidade de monitorização laboratorial rotineira, constitui vantagem prática. O guideline recomenda sua utilização em pacientes sintomáticos apesar de anti-histamínicos em dose elevada e falha ao omalizumabe.
Figura 1: Algoritmo de tratamento da urticária

O guideline internacional de 2026 representa um marco na evolução do manejo da urticária crônica. Ele consolida o entendimento da doença como uma condição mastocitária heterogênea, amplia o diagnóstico diferencial, estrutura de forma mais clara a investigação clínica e incorpora novas opções terapêuticas baseadas em mecanismos imunológicos específicos.
Referência:
Allergy, 2026; 0:1–51. The International Guideline for the Definition, Classification, Diagnosis and Management of Urticaria
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